☼ VOZES DA VILA NA FMU

Universitária FM reapresenta o premiado rádiodocumentário VOZES DA VILA


A Vila de Ponta Negra é um grande celeiro de Cultura e tradições que resiste ao tempo, a tudo e a todos! O bairro é guardião de uma história com mais de 300 anos, ainda pouco conhecida pelos natalenses, que catalisa boa parte do que restou da empoeirada memória da capital potiguar.

Para descortinar esse rico universo que pulsa lembranças de pescadores, mestres e rendeiras, entra em cena o rádiodocumentário VOZES DA VILA – projeto apresentado pela Universitária FM/Funpec ao I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos / Prêmio Roquette-Pinto. Realizado pela Arpub (Associação das Rádios Públicas do Brasil), com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, o Prêmio selecionou 40 propostas de todo o Brasil, sendo 13 radiodocumentários, e o VOZES DA VILA foi o único projeto contemplado no RN.

O produto consiste em seis horas de programa, dividido em 12 episódios de 30 minutos cada, que aborda aspectos e temas distintos como Cultura Popular, Pesca e Surf (Homens ao Mar), gastronomia (Sabores da Vila), turismo, educação, meio ambiente, urbanismo, lendas, crenças e religiões.

A produção do rádiodocumentário foi finalizada no mês de setembro de 2010, quando foi enviado à Arpub – que irá distribuir nacionalmente entre suas rádios associadas, através do download via site (www.arpub.org.br). Ou seja, além do VOZES DA VILA ser veiculado pela Universitária FM, o programa também será transmitido para todo o País.

Veiculado pela Universitária FM em dezembro de 2010, gerou grande repercussão, comentários e elogios de frequentadores e admiradores de Ponta Negra que tiveram a oportunidade de desvendar e descobrir a verdadeira história do bairro, contada pelos seus protagonistas: nativos, pescadores, rendeiras, mestres, brincantes, moradores.

Atendendo a pedidos dos ouvintes, a emissora irá reprisar os 12 episódios da série a partir da próxima segunda-feira, dia 4 de abril, às 12:30, sempre após o Jornal do Meio Dia. Para ouvir os programas sintonize o dial em 88,9 ou através do site www.fmu.ufrn.br.

Agucem os ouvidos e boa viagem!
www.vozesdavila.com.br

Informações, entrevistas e contatos:
Joanisa Prates – (84) 8838-5881
Ana Ferreira – (84) 8824-9155
Yuno Silva – (84) 8827-2006
vozesdavila@gmail.com

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☼ ARPUB DISPONIBILIZA PROGRAMAS

A diretoria da ARPUB tem a honra de apresentar os programas que foram contemplados com o Prêmio Roquette-Pinto. Essa ação é uma iniciativa inédita e ímpar para a radiodifusão pública brasileira: diversos programas foram inscritos e, depois da dura tarefa de analisar e escolher os melhores, estão disponíveis em nossa página.

Uma comissão de profissionais renomados selecionou diversos programas, produzidos em diferentes regiões do Brasil, que falam sobre diversidade cultural, resgate da história e da identidade das mulheres negras, adaptações de contos de Machado de Assis, mitos africanos, experiências sonoras sobre a diversidade do cerrado, entre muitos outros temas, divididos entre as seguintes categorias: rádiodocumentário, rádio dramaturgia, programa infanto-juvenil e rádio arte.

Os programas produzidos serão veiculados pelas emissoras públicas associadas à ARPUB e ficarão à disposição para veiculação em rádios não-comerciais. O projeto é uma iniciativa da ARPUB e contou com o apoio do Ministério da Cultura e teve patrocínio da Petrobras. Todos os internautas poderão ouvir os programas. Porém, somente instituições sem fins lucrativos poderão baixá-los.

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Clique aqui para ouvir os 12 episódios do Vozes da Vila

Para conhecer os demais programas acesse: www.arpub.org.br

Aproveitamos para informar que, atendendo a pedidos dos ouvintes, a rádio Universitária FM irá reprisar os 12 episódios da série Vozes da Vila a partir da próxima segunda, dia 4, às 12:30, sempre após o Jornal do Meio Dia. Sintonize o dial em 88,9 ou no site www.fmu.ufrn.br.

Agucem os ouvidos e boa viagem!

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☼ HISTÓRIA DA VILA: ÚLTIMA PARTE

Foto: Ana Ferreira
Após 45 anos da perda das terras, a Vila de Ponta Negra ainda não conseguiu se recuperar dos danos causados pela expropriação. A impossibilidade de praticar a agricultura de subsistência e o fato da pesca não conseguir se sustentar como atividade principal, fez com que os moradores deixassem de ser pequenos produtores diretos e passassem a categoria de proletariado e em seguida, com o advento do turismo, comerciantes e ambulantes.

Foi preciso contar (resumidamente) a trajetória dessa comunidade para se poder compreender como a Vila de Ponta Negra se insere no conceito “underclass”, discutido por Loïc Wacquant no livro “As prisões da miséria” e como o Estado Neoliberal, (nesse caso representado pela Polícia) se comporta com essa comunidade.

Sou moradora de Ponta Negra há mais de cinco e pude observar grandes mudanças ocorridas no bairro, e principalmente na Vila de Ponta Negra. Pude perceber, também, como a imagem do bairro mudou para os natalenses depois que as conseqüências do boom turístico mal planejado e da falta de controle econômico e social saíram nas páginas dos jornais locais. Hoje Ponta Negra é tida como local de prostituição, venda e uso de drogas e de acentuada violência urbana.

A primeira década do século XXI foi um período de grandes transformações em Ponta Negra. A atividade turística deu um salto (maior que as pernas) gigantesco e no final de 2009 teve uma queda brusca ocasionada por diversos fatores relacionados a falta de planejamento dessa atividade dentro de Natal. O fato é que a Vila sofreu na pele tais conseqüências muito mais que os moradores de outras áreas do bairro. O motivo: a maioria dos moradores da Vila são trabalhadores informais, assalariados e com baixo de escolaridade; são esses moradores que dependem diretamente da atividade turística como fonte de sustento. Com o declínio do turismo, somado aos problemas sociais e abandono do poder Público, a comunidade entra em uma nova crise.

Na ausência de qualquer rede de proteção social, é certo que a juventude dos bairros populares esmagados pelo peso do desemprego e do subemprego crônicos continuará a buscar no “capitalismo de pilhagem” da rua (como diria Max Weber) os meios de sobreviver e realizar os valores do código de honra masculino, já que não consegue escapar da miséria no cotidiano. (Wacquant, pág. 5, 1999)

Durante a produção do Rádio Documentário Vozes da Vila, do qual fui produtora e roteirista, pude perceber que as famílias que foram produtoras e auto-suficientes antes da expropriação das terras agricultáveis e que viviam livres dentro de um espaço onde havia trabalho para todos estão sufocadas e esmagadas dentro de becos e barracos, se submetendo a trabalhos assalariados ou tendo que descer e subir, todos os dias, as ladeiras da Vila a custo enorme de força física de tração quase animal, empurrando seus carrinhos* pela praia mais visitada de Natal-RN. Os jovens dessas famílias estão sendo engolidos pelo tráfico e consumo de drogas e a mídia local insiste em noticiar os fatos isolados de violência juvenil.

No dia 26 de junho de 2010, aconteceu um acidente na Rua Morro do Careca. O jornal Tribuna do Norte noticiou o acontecido:

Atentado mata uma criança e deixa cinco feridos em Ponta Negra.
Cinco pessoas ficaram feridas e um bebê de seis meses morreu após atentado na rua Morro do Careca, na Vila de Ponta Negra. Segundo informações do coronel Alarico Azevedo, por volta das 22h30, um veículo branco parou próximo a casa, que fica em uma esquina, e os ocupantes atiraram contra quem estava na rua. (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/atentado-mata-uma-crianca-e-deixa-cinco-feridos-em-ponta-negra/152670)

No dia 29 do mesmo mês, a polícia se pronuncia dizendo o seguinte ao mesmo jornal:

O delegado titular da 15ª Delegacia de Polícia em Ponta Negra, Luiz Lucena, já identificou alguns dos responsáveis pelos vários tiros disparados na noite de sábado, na rua Morro do Careca, na Vila de Ponta Negra, zona Sul de Natal, e que resultaram na morte do bebê Rafael Alexandre e deixaram mais cinco pessoas feridas. A “tentativa de chacina” teria sido motivada, segundo Lucena, por uma rixa antiga e por uma disputa pelo comando do crime na área.

“Temos a informação de que esse grupo teria ido até à festa matar um rapaz que estava lá e que tem uma rixa antiga com eles. Como não o encontraram, saíram atirando a esmo em quem estava na rua”, contou Lucena. Essa rixa seria motivada também pelo controle do crime no bairro. “Não está necessariamente ligada ao tráfico de drogas. São pessoas que querem se destacar no mundo do crime e cometem homicídios por vingança para acabar com os desafetos. Aqui em Ponta Negra está cheio de pessoas desse tipo. Agora, eles são bandidos chinfrins, que tiram a vida de alguém totalmente inocente e revoltam a Polícia e toda a sociedade”, afirmou.(http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/delegado-identifica-atiradores/152782)

Quando um delegado de Polícia afirma que a Vila esta cheia de gente desse tipo em um dos jornais mais lidos da cidade, a população termina acreditando que todos que moram nesse bairro são assim. Muitas vezes presenciei a Polícia Militar abordando pessoas nas ruas. A maioria das pessoas paradas são rapazes, negros com determinado modo de se vestir. Durante a semana do crime, o Jornal Tribuna do Norte fez, durante uma semana, a cobertura diária sobre o caso. Esse seria um momento muito oportuno para iniciar uma discussão sobre os problemas socioeconômicos do bairro mas (como era de se esperar isso não foi feito).

Todos os dias acontecem um ato de violência cometido por homens ou mulheres dentro da Vila de Ponta Negra. O número de meninas grávidas aumenta junto com o número de adolescentes e jovens usando drogas. O número de pessoas que acham corretas as intervenções violenta da polícia também aumenta.

Essa violência policial inscreve-se em uma tradição nacional multissecular de controle dos miseráveis pela força, tradição oriunda da escravidão e dos conflitos agrários, que se viu fortalecida por duas década de ditadura militar, quando a luta contra a “subversão interna” se disfarçou em repressão aos delinqüentes. (WACQUANT, pág. 5, 1999)

Assim como os moradores negros de bairros pobres de Nova Yorque sofreram, na década de 1990, a truculenta operação Tolerância Zero, os descendentes de ex-agricultores e pescadores estão sofrendo na Vila. E (quase) nada é feito para que haja uma mudança social. Os moradores não acreditam na Polícia como defensora de uma ordem geral. Ela é vista como a força do Estado que defende o interesse de quem esta inserido dentro da sociedade do consumo.

“Infelizmente a Vila de Ponta Negra não tem segurança para os seus moradores. Uma vez ou outra é que passa uma viatura da polícia, mas nós precisamos de um policiamento contínuo. Para se ter uma ideia, há anos lutamos para que seja colocado um posto policial aqui, mas até agora nada foi feito. Agora na parte rica de Ponta Negra tem posto policial e ronda constante”, reclamou o presidente do Conselho Comunitário de Ponta Negra, Emanoel Damasceno. (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/medo-toma-conta-dos-moradores/152880)

Os moradores mais antigos reagem como podem. A Vila é uma das únicas comunidades de Natal em que os mestres de Cultura Popular estão inseridos e atuando dentro dos (poucos) movimentos sociais organizados. Os movimentos sociais existentes na Vila ainda atuam de maneira isolada, mas já é possível ver alguns resultados, o problema é que a iniciativa não parte dos nativos, ela vem de pessoas que moraram no bairro há muito tempo e que tem certa influencia social (artistas, professores, jornalistas, etc.).

Neste momento, Ponta Negra está numa grande encruzilhada: ou busca um equilíbrio entre interesses sociais e econômicos, ou perde de vez o que resta de magia, de tradições e de cultura. Há um novo ciclo de investimento em infra-estrutura urbana se aproximando com a realização da Copa de 2014, e Natal precisa se adequar para receber algumas partidas do campeonato mundial de futebol. Como a cidade tem vocação turística e a praia de Ponta Negra é o principal destino de todos os visitantes que desembarcam na capital do Rio Grande do Norte, resta saber o que o futuro aguarda para esse pedaço de paraíso.

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☼ DE AGRICULTOR A ASSALARIADO


Foto: Joanisa Prates
Quem não tem roçado passa a ser assalariado.

Após a expropriação, os moradores passaram da Vila passaram por maus momentos, mas conseguiram prosseguir. O fato é que: “eles viviam com um arranjo socioeconômico adaptado ao seu ambiente e foram violentamente desligados de parte deste para terem que enfrentar as desumanidades do modo de produção capitalista e terem de vender sua força de trabalho” (GARDA, pág. 75, 1983).

Devido ao seu posicionamento geográfico (proximidade ao centro da cidade) os moradores não precisaram migrar. Os homens encontram trabalho assalariado em fábricas e na construção civil e as mulheres continuaram a fazer renda e aproveitaram o aumento do fluxo de pessoas visitando a praia e começaram a trabalhar como comerciantes nas barracas a beira mar, servindo comidas típicas e bebidas.

Nesse mesmo período 1980 existiam aproximadamente 70 barracas e, segundo Garda, 65 eram de moradores da Vila. Esse desenvolvimento no mercado informal foi possível por diversos motivos. No final da década de 1970 foram construídos (ao norte da Vila) dois conjuntos habitacionais: o Conjunto Ponta Negra e o Conjunto Alagamar com aproximadamente 2.100 casas e 11.000 de habitantes[1] . Esse advento fez o número de habitantes aumentarem consideravelmente e, se avaliarmos o número de migrantes que foram chegando ao local, esse aumento é ainda maior. Tal contexto fez com os contrastes sociais começassem a surgir e a Vila passou a ser rodeada por bairros das camadas médias e altas do único lado para onde ela poderia crescer.

Mesmo com toda essa mudança, o clima de cidade praiana ainda existia no bairro e a elite intelectual de Natal adorava frenquentar a vida noturna da Vila de pescadores. Entretanto (sempre há o entretanto!) o bairro foi crescendo de maneira desordenada, sem a presença do poder público para organizar as questões espaciais, territoriais e sociais.

No final doa anos 1980, a orla marítima passa por processo de urbanização que tinha como objetivo deixar o espaço da orla e do bairro em evidência, atraindo assim investimentos (nacionais e internacionais) e exploração das atividades turísticas. Em 1993 a Vila e seu entorno são considerados bairro de Natal, o turismo começa a ser foco dos investimentos da cidade e Ponta Negra passa a ser a menina dos olhos do turismo nacional e internacional.

Em 2000 é executado o projeto de reurbanização da orla de Ponta Negra, com recursos obtidos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR –RN) que resultou na construção do calçadão com três quilômetros de extensão na iluminação da área e revestimentos das calçadas que contornam a descida da praia (antes era duna de areia) e na substituição das barracas por quiosques de fibra de vidro.

Mais uma vez a história se repete. Mais uma vez os moradores da Vila sentem na pele o que é ser a minoria que precisa ser sacrificada pelo bem da “maioria”.

CONTINUA...



[1] Levantamento de campo feito por GARDA, 1983.

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☼ A 2ª GUERRA E PONTA NEGRA

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, em 1941, Natal passa a ser base aliada estratégica por ser a cidade da América mais próxima da África e da Europa. A cidade se transformou e a ocupação dos soldados norte-americanos trouxe consequências sociais, econômicas e culturais. Só para se ter uma ideia da situação, imagine Natal nos anos 1940, com cerca de 60 mil habitantes, recebendo mais de 20 mil soldados norte-americanos durante a Segunda Guerra? 

O estilo de vida dos natalenses foi influenciado diretamente pelos costumes norte-americanos. Dizem, inclusive, que foi por aqui que a máquina de chopp, o chiclete e o fliperama desembarcaram no Brasil. E em Ponta Negra não foi diferente: a chegada dos yankees provocou grandes mudanças na história do povoado e algumas manias, como jogar baralho apostando dinheiro, foram combatidas pela polícia e pela Igreja Católica - representada pelo pároco da comunidade Padre Eugênio Sales, hoje arcebispo emérito do Rio de Janeiro.

O acesso a comunidade por estradas, que antes da Guerra não existiam, também sofreu modificações. A estrada de Ponta Negra foi aberta, e como era de se esperar, a área ganhou valor de mercadoria, e várias famílias de Natal se apropriaram de grandes lotes de terra na beira da praia para construir suas casas de veraneio. A princípio, os moradores do povoado viam essa movimentação com bons olhos porque eles começaram a ter mais opções de trabalho (trabalhos domésticos, construção civil, artesanatos, etc.), no entanto, e essa apropriação serviu de alerta para os moradores quando Fernando Perdroza, buscando uma desculpa para começar uma negociação com os moradores da Vila, começou a mostrar essa apropriação como uma ameaça às terras agricultáveis.

Lois Garda escutou depoimentos reveladores durante sua pesquisa:

“Bom, primeiro eu estava interessada nas barracas e nas mulheres. Mas quando eu cheguei aqui, eu vi que realmente a história da Vila é a história da maioria do povo que morava no interior do Brasil que foi expulso para cidade. A diferença é que aqui eles não foram expulsos, a cidade mudou para cá. Então eles conseguiram manter a família e manter os laços de amizade de família e etc., que uma pessoa retirante do interior, normalmente não tem esses vínculos tão grandes de famílias assistentes. Eu acho que isso ajudou ao povo que originalmente morava na Vila a sair melhor do que a maioria das pessoas que tiveram esse percurso. E durante esse tempo eu fui vendo e soube que teve uma briga pelas terras em Ponta Negra e vi que essa era a história.” (O trecho é um depoimento de Lois durante entrevista concedida à equipe do Rádio Documentário Vozes da Vila, em setembro/2010.)

O roçado que brotou foguete

A antropóloga Lois Martin Garda chegou para morar na Vila em 1978 com sua família e foi uma das primeiras estrangeiras a fixar em Ponta Negra. Em seu estudo, no Capítulo 3 A perda das terras de Ponta Negra e suas representações, ela mostra em sua tese, quatro versões distintas para a disputa que marcou profundamente o rumo do povoado de Ponta Negra: uma foi do beneficiário da expropriação, Fernando Pedroza e as outras três foram de moradores da Vila que participaram ativamente da disputa.

Segundo o depoimento de um dos moradores, o avô de Fernando Pedroza tinha uma relação de compadrio com muitos moradores de Ponta Negra e comprava terras nesse local só para ajudar os compadres, contudo, no ato da “compra” ele fazia um “recibozinho” mas nunca tentou afirmar seu direito sobre as terras. 

Por volta de 1949, seu neto Fernando, chegou a Vila com esses recibos e uma garrafa de cachaça Olho d’Água, entrou na bodega e juntou os homens mais velhos para uma conversa. Conversou muito sobre a bondade de seu avô e falou sobre o perigo dos “tubarões da boca grande” (assim ele se referia aos veranistas) que estavam loteando a beira da praia. 

Após muita conversa e cachaça convenceu-os de que precisavam da proteção de uma família poderosa e que deveriam assinar um documento provando não só a validez de seus recibos, como também seu direito sobre as terras que o povo de Ponta Negra trabalhava. Quando os mais jovens souberam do acontecido os ares na comunidade ficaram tenso e em 1955 - final do mandato de governador do Estado de Sílvio Pedroza (irmão de Fernando) – começaram a contestar seu direito a terra. Em 1957, Fernando fez a medição das terras e deu ordem aos capangas para expulsar qualquer pessoa que entrasse no mato de Ponta Negra. Crianças, mulheres e os homens que trabalhavam na roça ou faziam carvão foram agredidos. Foi nesse ano, também, que ele doou a área da Vila (cerca de 65 há) à Arquidiocese de Natal.

Inconformados com a não legitimidade da posse de Fernando, os moradores se organizavam e tiravam as cercas. Garda conta um episódio muito interessante: um grupo de moradores saiu armado com facas e foice, para combater pelos roçados, passou pelo carro do Padre Eugênio Salles que tentou dissuadi-los e não conseguindo deu meia volta e foi chamar a polícia. Nessa época, a preocupação da comunidade se resumia em ter acesso ao mar e a garantia de espaço para o roçado. Diante da pressão e da “conversa bonita”, alguns moradores ficaram acuados e fizeram um acordo com Pedroza para não perder tudo. Outros continuaram a lutar por seu direito de trabalhar nas terras de Ponta Negra. O jornal Tribuna do norte noticiou a disputa no dia 30 de abril de 1957:

“Pescadores de Ponta Negra visitaram a redação da Tribuna do Norte para reclamar a passagem das escrituras que tinham no 1º Cartório ao nome de Fernando Pedroza... Reclamavam que não podiam sobreviver no inverno sem a roça...” (Tribuna do Norte: 30/04/1957, pag. 4, APUD GARDA.)

O movimento continuou recebendo repressão por parte da Igreja, da Polícia e do Mercado imobiliário e alguns anos depois, com o Golpe Militar de 1964, a Aeronáutica deu o “xeque-mate” da disputa. Fernando Pedroza recebeu uma convocação urgente do Ministro da Aeronáutica e foi informado que Ponta Negra tinha sido escolhida, por oferecer melhores condições, para receber a construção de um Centro de Lançamento de Foguetes financiado pela NASA e que deveria ceder parte de “suas” terras. Sem levar em consideração o histórico das terras a Aeronáutica, em 1965, construiu nessas terras a primeira base de lançamentos de foguetes do Brasil, conhecida como Barreira do Inferno. Os moradores não puderam mais resistir às forças armadas federais e abandonaram definitivamente os roçados.

Segundo Lois Garda, Pedroza nunca conseguiu consolidar a posse dessas terras, mas o fato é que, depois desse episódio, os moradores da Vila nunca mais conseguiram restabelecer o equilíbrio econômico e social. Maria Helena Correia dos Prazeres, nativa com 67 anos de idade conta que seu pai adoeceu após ter perdido o roçado. As mulheres não podiam mais pegar frutas no “mato” e a maioria delas foi cuidar de barracas (vendiam comida e bebida) na beira da praia, aproveitando o aumento no fluxo de freqüentadores e os homens foram vender sua mão-de-obra no centro da cidade ou na construção civil. Vale salientar que a maioria dessas pessoas só tinha concluído os primeiros anos de escola.

Lois Garda conclui o Capítulo 3 de sua tese dizendo que é muito difícil precisar com base nos dados colhidos, o que realmente aconteceu durante os longos anos de disputa, mas que não podemos ignorar a violência dessa expropriação ou das mudanças socioeconômicas que ela desencadeou.

Assim a Vila de Ponta Negra passou de reduto agrícola à periferia urbana e atualmente enfrenta graves problemas econômicos e sociais, além do preconceito social visível nas páginas dos jornais da cidade, que ignora os mais de 300 anos de histórias e tradições do núcleo que povoou um dos bairros mais importantes para a atividade turística em Natal-RN.

Continua....

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☼ UMA BREVE HISTÓRIA DA VILA

Você conhece a história de Ponta Negra?

Por ser moradores, sabíamos uns pedaços de história escutadas na escola e outras ouvidas por alguns moradores. Depois de três meses respirando a vida do bairro e escutando as várias vozes que nele vivem pudemos fazer um apanhado de informações interessantíssimas.

E como conhecimento nunca é demais e também não ocupa espaço, decidimos compartilhar essa rica história baseada nas memórias dos nativos e moradores que tanto amam esse bairro.

Uma das primeiras referências históricas a Ponta Negra é a descrição do desembarque, em 8 de dezembro de 1633, de tropas holandesas. Alguns registros de 1877 falam de uma casa de oração no povoado e de uma escola católica pública exclusiva para meninos. O primeiro nome da localidade foi Cabo de São Roque, depois passou a se chamar Ponta Preta, isso graças à quantidade de pedras pretas vistas de cima da estrada mas depois, Ponta Negra caiu no gosto popular. 

Os registros escritos sobre a história de Ponta Negra são escassos e, para fazer escrever esse capítulo, tomamos como ponto de partida os anos 1940, pois o texto que utilizamos como referencial histórico para analisar a comunidade, retoma seu cotidiano e seus laços familiares a partir dessa década. O texto em questão é: A Família e Mudança Social, tese de Mestrado da antropóloga norte-americana Martin Lois Garda, defendida em 1983, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O Início

Bem antes de ser ponto turístico da Cidade do Sol, Ponta Negra era um povoado de agricultores e pescadores, vivendo independente do centro da cidade e cercado de dunas cobertas pela vegetação nativa de tabuleiro costeiro e um extenso mar azul de águas mornas e calmas. Um verdadeiro paraíso!

A população era praticamente auto-suficiente no que diz respeito à alimentação, pois tudo era produzido dentro do território da comunidade. As tarefas diárias (o trabalho) eram assim divididas: os homens praticavam a pesca artesanal, a agricultura de subsistência plantando milho, feijão, mandioca entre outros e produziam carvão. As mulheres produziam renda de bilro e colhiam frutas da estação no Tabuleiro Costeiro para vender no centro da cidade e também cuidavam dos afazeres domésticos e dos filhos. Três casas de farinha concentravam a produção, reunindo famílias em cantigas, danças e cooperativismo.

O desenvolvimento urbano desse povoado teve início na década de 1940, mas sua primeira grande transformação social e econômica aconteceu após quase 20 anos de disputa pelas terras agricultáveis entre os nativos e Fernando Pedroza - corretor imobiliário com grande influência política no Estado e cuja família já criava algumas cabeças de gado nas terras de Ponta Negra.

Para que possamos compreender o porquê dessa disputa é necessário abrir um parêntese e contextualizar um período histórico da cidade do Natal que teve relação direta com essa luta.

Aguarde o próximo post...

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