☼ HISTÓRIA DA VILA: ÚLTIMA PARTE

Foto: Ana Ferreira
Após 45 anos da perda das terras, a Vila de Ponta Negra ainda não conseguiu se recuperar dos danos causados pela expropriação. A impossibilidade de praticar a agricultura de subsistência e o fato da pesca não conseguir se sustentar como atividade principal, fez com que os moradores deixassem de ser pequenos produtores diretos e passassem a categoria de proletariado e em seguida, com o advento do turismo, comerciantes e ambulantes.

Foi preciso contar (resumidamente) a trajetória dessa comunidade para se poder compreender como a Vila de Ponta Negra se insere no conceito “underclass”, discutido por Loïc Wacquant no livro “As prisões da miséria” e como o Estado Neoliberal, (nesse caso representado pela Polícia) se comporta com essa comunidade.

Sou moradora de Ponta Negra há mais de cinco e pude observar grandes mudanças ocorridas no bairro, e principalmente na Vila de Ponta Negra. Pude perceber, também, como a imagem do bairro mudou para os natalenses depois que as conseqüências do boom turístico mal planejado e da falta de controle econômico e social saíram nas páginas dos jornais locais. Hoje Ponta Negra é tida como local de prostituição, venda e uso de drogas e de acentuada violência urbana.

A primeira década do século XXI foi um período de grandes transformações em Ponta Negra. A atividade turística deu um salto (maior que as pernas) gigantesco e no final de 2009 teve uma queda brusca ocasionada por diversos fatores relacionados a falta de planejamento dessa atividade dentro de Natal. O fato é que a Vila sofreu na pele tais conseqüências muito mais que os moradores de outras áreas do bairro. O motivo: a maioria dos moradores da Vila são trabalhadores informais, assalariados e com baixo de escolaridade; são esses moradores que dependem diretamente da atividade turística como fonte de sustento. Com o declínio do turismo, somado aos problemas sociais e abandono do poder Público, a comunidade entra em uma nova crise.

Na ausência de qualquer rede de proteção social, é certo que a juventude dos bairros populares esmagados pelo peso do desemprego e do subemprego crônicos continuará a buscar no “capitalismo de pilhagem” da rua (como diria Max Weber) os meios de sobreviver e realizar os valores do código de honra masculino, já que não consegue escapar da miséria no cotidiano. (Wacquant, pág. 5, 1999)

Durante a produção do Rádio Documentário Vozes da Vila, do qual fui produtora e roteirista, pude perceber que as famílias que foram produtoras e auto-suficientes antes da expropriação das terras agricultáveis e que viviam livres dentro de um espaço onde havia trabalho para todos estão sufocadas e esmagadas dentro de becos e barracos, se submetendo a trabalhos assalariados ou tendo que descer e subir, todos os dias, as ladeiras da Vila a custo enorme de força física de tração quase animal, empurrando seus carrinhos* pela praia mais visitada de Natal-RN. Os jovens dessas famílias estão sendo engolidos pelo tráfico e consumo de drogas e a mídia local insiste em noticiar os fatos isolados de violência juvenil.

No dia 26 de junho de 2010, aconteceu um acidente na Rua Morro do Careca. O jornal Tribuna do Norte noticiou o acontecido:

Atentado mata uma criança e deixa cinco feridos em Ponta Negra.
Cinco pessoas ficaram feridas e um bebê de seis meses morreu após atentado na rua Morro do Careca, na Vila de Ponta Negra. Segundo informações do coronel Alarico Azevedo, por volta das 22h30, um veículo branco parou próximo a casa, que fica em uma esquina, e os ocupantes atiraram contra quem estava na rua. (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/atentado-mata-uma-crianca-e-deixa-cinco-feridos-em-ponta-negra/152670)

No dia 29 do mesmo mês, a polícia se pronuncia dizendo o seguinte ao mesmo jornal:

O delegado titular da 15ª Delegacia de Polícia em Ponta Negra, Luiz Lucena, já identificou alguns dos responsáveis pelos vários tiros disparados na noite de sábado, na rua Morro do Careca, na Vila de Ponta Negra, zona Sul de Natal, e que resultaram na morte do bebê Rafael Alexandre e deixaram mais cinco pessoas feridas. A “tentativa de chacina” teria sido motivada, segundo Lucena, por uma rixa antiga e por uma disputa pelo comando do crime na área.

“Temos a informação de que esse grupo teria ido até à festa matar um rapaz que estava lá e que tem uma rixa antiga com eles. Como não o encontraram, saíram atirando a esmo em quem estava na rua”, contou Lucena. Essa rixa seria motivada também pelo controle do crime no bairro. “Não está necessariamente ligada ao tráfico de drogas. São pessoas que querem se destacar no mundo do crime e cometem homicídios por vingança para acabar com os desafetos. Aqui em Ponta Negra está cheio de pessoas desse tipo. Agora, eles são bandidos chinfrins, que tiram a vida de alguém totalmente inocente e revoltam a Polícia e toda a sociedade”, afirmou.(http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/delegado-identifica-atiradores/152782)

Quando um delegado de Polícia afirma que a Vila esta cheia de gente desse tipo em um dos jornais mais lidos da cidade, a população termina acreditando que todos que moram nesse bairro são assim. Muitas vezes presenciei a Polícia Militar abordando pessoas nas ruas. A maioria das pessoas paradas são rapazes, negros com determinado modo de se vestir. Durante a semana do crime, o Jornal Tribuna do Norte fez, durante uma semana, a cobertura diária sobre o caso. Esse seria um momento muito oportuno para iniciar uma discussão sobre os problemas socioeconômicos do bairro mas (como era de se esperar isso não foi feito).

Todos os dias acontecem um ato de violência cometido por homens ou mulheres dentro da Vila de Ponta Negra. O número de meninas grávidas aumenta junto com o número de adolescentes e jovens usando drogas. O número de pessoas que acham corretas as intervenções violenta da polícia também aumenta.

Essa violência policial inscreve-se em uma tradição nacional multissecular de controle dos miseráveis pela força, tradição oriunda da escravidão e dos conflitos agrários, que se viu fortalecida por duas década de ditadura militar, quando a luta contra a “subversão interna” se disfarçou em repressão aos delinqüentes. (WACQUANT, pág. 5, 1999)

Assim como os moradores negros de bairros pobres de Nova Yorque sofreram, na década de 1990, a truculenta operação Tolerância Zero, os descendentes de ex-agricultores e pescadores estão sofrendo na Vila. E (quase) nada é feito para que haja uma mudança social. Os moradores não acreditam na Polícia como defensora de uma ordem geral. Ela é vista como a força do Estado que defende o interesse de quem esta inserido dentro da sociedade do consumo.

“Infelizmente a Vila de Ponta Negra não tem segurança para os seus moradores. Uma vez ou outra é que passa uma viatura da polícia, mas nós precisamos de um policiamento contínuo. Para se ter uma ideia, há anos lutamos para que seja colocado um posto policial aqui, mas até agora nada foi feito. Agora na parte rica de Ponta Negra tem posto policial e ronda constante”, reclamou o presidente do Conselho Comunitário de Ponta Negra, Emanoel Damasceno. (http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/medo-toma-conta-dos-moradores/152880)

Os moradores mais antigos reagem como podem. A Vila é uma das únicas comunidades de Natal em que os mestres de Cultura Popular estão inseridos e atuando dentro dos (poucos) movimentos sociais organizados. Os movimentos sociais existentes na Vila ainda atuam de maneira isolada, mas já é possível ver alguns resultados, o problema é que a iniciativa não parte dos nativos, ela vem de pessoas que moraram no bairro há muito tempo e que tem certa influencia social (artistas, professores, jornalistas, etc.).

Neste momento, Ponta Negra está numa grande encruzilhada: ou busca um equilíbrio entre interesses sociais e econômicos, ou perde de vez o que resta de magia, de tradições e de cultura. Há um novo ciclo de investimento em infra-estrutura urbana se aproximando com a realização da Copa de 2014, e Natal precisa se adequar para receber algumas partidas do campeonato mundial de futebol. Como a cidade tem vocação turística e a praia de Ponta Negra é o principal destino de todos os visitantes que desembarcam na capital do Rio Grande do Norte, resta saber o que o futuro aguarda para esse pedaço de paraíso.

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☼ DE AGRICULTOR A ASSALARIADO


Foto: Joanisa Prates
Quem não tem roçado passa a ser assalariado.

Após a expropriação, os moradores passaram da Vila passaram por maus momentos, mas conseguiram prosseguir. O fato é que: “eles viviam com um arranjo socioeconômico adaptado ao seu ambiente e foram violentamente desligados de parte deste para terem que enfrentar as desumanidades do modo de produção capitalista e terem de vender sua força de trabalho” (GARDA, pág. 75, 1983).

Devido ao seu posicionamento geográfico (proximidade ao centro da cidade) os moradores não precisaram migrar. Os homens encontram trabalho assalariado em fábricas e na construção civil e as mulheres continuaram a fazer renda e aproveitaram o aumento do fluxo de pessoas visitando a praia e começaram a trabalhar como comerciantes nas barracas a beira mar, servindo comidas típicas e bebidas.

Nesse mesmo período 1980 existiam aproximadamente 70 barracas e, segundo Garda, 65 eram de moradores da Vila. Esse desenvolvimento no mercado informal foi possível por diversos motivos. No final da década de 1970 foram construídos (ao norte da Vila) dois conjuntos habitacionais: o Conjunto Ponta Negra e o Conjunto Alagamar com aproximadamente 2.100 casas e 11.000 de habitantes[1] . Esse advento fez o número de habitantes aumentarem consideravelmente e, se avaliarmos o número de migrantes que foram chegando ao local, esse aumento é ainda maior. Tal contexto fez com os contrastes sociais começassem a surgir e a Vila passou a ser rodeada por bairros das camadas médias e altas do único lado para onde ela poderia crescer.

Mesmo com toda essa mudança, o clima de cidade praiana ainda existia no bairro e a elite intelectual de Natal adorava frenquentar a vida noturna da Vila de pescadores. Entretanto (sempre há o entretanto!) o bairro foi crescendo de maneira desordenada, sem a presença do poder público para organizar as questões espaciais, territoriais e sociais.

No final doa anos 1980, a orla marítima passa por processo de urbanização que tinha como objetivo deixar o espaço da orla e do bairro em evidência, atraindo assim investimentos (nacionais e internacionais) e exploração das atividades turísticas. Em 1993 a Vila e seu entorno são considerados bairro de Natal, o turismo começa a ser foco dos investimentos da cidade e Ponta Negra passa a ser a menina dos olhos do turismo nacional e internacional.

Em 2000 é executado o projeto de reurbanização da orla de Ponta Negra, com recursos obtidos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) por meio do Programa de Desenvolvimento do Turismo (PRODETUR –RN) que resultou na construção do calçadão com três quilômetros de extensão na iluminação da área e revestimentos das calçadas que contornam a descida da praia (antes era duna de areia) e na substituição das barracas por quiosques de fibra de vidro.

Mais uma vez a história se repete. Mais uma vez os moradores da Vila sentem na pele o que é ser a minoria que precisa ser sacrificada pelo bem da “maioria”.

CONTINUA...



[1] Levantamento de campo feito por GARDA, 1983.

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☼ A 2ª GUERRA E PONTA NEGRA

Com o advento da Segunda Guerra Mundial, em 1941, Natal passa a ser base aliada estratégica por ser a cidade da América mais próxima da África e da Europa. A cidade se transformou e a ocupação dos soldados norte-americanos trouxe consequências sociais, econômicas e culturais. Só para se ter uma ideia da situação, imagine Natal nos anos 1940, com cerca de 60 mil habitantes, recebendo mais de 20 mil soldados norte-americanos durante a Segunda Guerra? 

O estilo de vida dos natalenses foi influenciado diretamente pelos costumes norte-americanos. Dizem, inclusive, que foi por aqui que a máquina de chopp, o chiclete e o fliperama desembarcaram no Brasil. E em Ponta Negra não foi diferente: a chegada dos yankees provocou grandes mudanças na história do povoado e algumas manias, como jogar baralho apostando dinheiro, foram combatidas pela polícia e pela Igreja Católica - representada pelo pároco da comunidade Padre Eugênio Sales, hoje arcebispo emérito do Rio de Janeiro.

O acesso a comunidade por estradas, que antes da Guerra não existiam, também sofreu modificações. A estrada de Ponta Negra foi aberta, e como era de se esperar, a área ganhou valor de mercadoria, e várias famílias de Natal se apropriaram de grandes lotes de terra na beira da praia para construir suas casas de veraneio. A princípio, os moradores do povoado viam essa movimentação com bons olhos porque eles começaram a ter mais opções de trabalho (trabalhos domésticos, construção civil, artesanatos, etc.), no entanto, e essa apropriação serviu de alerta para os moradores quando Fernando Perdroza, buscando uma desculpa para começar uma negociação com os moradores da Vila, começou a mostrar essa apropriação como uma ameaça às terras agricultáveis.

Lois Garda escutou depoimentos reveladores durante sua pesquisa:

“Bom, primeiro eu estava interessada nas barracas e nas mulheres. Mas quando eu cheguei aqui, eu vi que realmente a história da Vila é a história da maioria do povo que morava no interior do Brasil que foi expulso para cidade. A diferença é que aqui eles não foram expulsos, a cidade mudou para cá. Então eles conseguiram manter a família e manter os laços de amizade de família e etc., que uma pessoa retirante do interior, normalmente não tem esses vínculos tão grandes de famílias assistentes. Eu acho que isso ajudou ao povo que originalmente morava na Vila a sair melhor do que a maioria das pessoas que tiveram esse percurso. E durante esse tempo eu fui vendo e soube que teve uma briga pelas terras em Ponta Negra e vi que essa era a história.” (O trecho é um depoimento de Lois durante entrevista concedida à equipe do Rádio Documentário Vozes da Vila, em setembro/2010.)

O roçado que brotou foguete

A antropóloga Lois Martin Garda chegou para morar na Vila em 1978 com sua família e foi uma das primeiras estrangeiras a fixar em Ponta Negra. Em seu estudo, no Capítulo 3 A perda das terras de Ponta Negra e suas representações, ela mostra em sua tese, quatro versões distintas para a disputa que marcou profundamente o rumo do povoado de Ponta Negra: uma foi do beneficiário da expropriação, Fernando Pedroza e as outras três foram de moradores da Vila que participaram ativamente da disputa.

Segundo o depoimento de um dos moradores, o avô de Fernando Pedroza tinha uma relação de compadrio com muitos moradores de Ponta Negra e comprava terras nesse local só para ajudar os compadres, contudo, no ato da “compra” ele fazia um “recibozinho” mas nunca tentou afirmar seu direito sobre as terras. 

Por volta de 1949, seu neto Fernando, chegou a Vila com esses recibos e uma garrafa de cachaça Olho d’Água, entrou na bodega e juntou os homens mais velhos para uma conversa. Conversou muito sobre a bondade de seu avô e falou sobre o perigo dos “tubarões da boca grande” (assim ele se referia aos veranistas) que estavam loteando a beira da praia. 

Após muita conversa e cachaça convenceu-os de que precisavam da proteção de uma família poderosa e que deveriam assinar um documento provando não só a validez de seus recibos, como também seu direito sobre as terras que o povo de Ponta Negra trabalhava. Quando os mais jovens souberam do acontecido os ares na comunidade ficaram tenso e em 1955 - final do mandato de governador do Estado de Sílvio Pedroza (irmão de Fernando) – começaram a contestar seu direito a terra. Em 1957, Fernando fez a medição das terras e deu ordem aos capangas para expulsar qualquer pessoa que entrasse no mato de Ponta Negra. Crianças, mulheres e os homens que trabalhavam na roça ou faziam carvão foram agredidos. Foi nesse ano, também, que ele doou a área da Vila (cerca de 65 há) à Arquidiocese de Natal.

Inconformados com a não legitimidade da posse de Fernando, os moradores se organizavam e tiravam as cercas. Garda conta um episódio muito interessante: um grupo de moradores saiu armado com facas e foice, para combater pelos roçados, passou pelo carro do Padre Eugênio Salles que tentou dissuadi-los e não conseguindo deu meia volta e foi chamar a polícia. Nessa época, a preocupação da comunidade se resumia em ter acesso ao mar e a garantia de espaço para o roçado. Diante da pressão e da “conversa bonita”, alguns moradores ficaram acuados e fizeram um acordo com Pedroza para não perder tudo. Outros continuaram a lutar por seu direito de trabalhar nas terras de Ponta Negra. O jornal Tribuna do norte noticiou a disputa no dia 30 de abril de 1957:

“Pescadores de Ponta Negra visitaram a redação da Tribuna do Norte para reclamar a passagem das escrituras que tinham no 1º Cartório ao nome de Fernando Pedroza... Reclamavam que não podiam sobreviver no inverno sem a roça...” (Tribuna do Norte: 30/04/1957, pag. 4, APUD GARDA.)

O movimento continuou recebendo repressão por parte da Igreja, da Polícia e do Mercado imobiliário e alguns anos depois, com o Golpe Militar de 1964, a Aeronáutica deu o “xeque-mate” da disputa. Fernando Pedroza recebeu uma convocação urgente do Ministro da Aeronáutica e foi informado que Ponta Negra tinha sido escolhida, por oferecer melhores condições, para receber a construção de um Centro de Lançamento de Foguetes financiado pela NASA e que deveria ceder parte de “suas” terras. Sem levar em consideração o histórico das terras a Aeronáutica, em 1965, construiu nessas terras a primeira base de lançamentos de foguetes do Brasil, conhecida como Barreira do Inferno. Os moradores não puderam mais resistir às forças armadas federais e abandonaram definitivamente os roçados.

Segundo Lois Garda, Pedroza nunca conseguiu consolidar a posse dessas terras, mas o fato é que, depois desse episódio, os moradores da Vila nunca mais conseguiram restabelecer o equilíbrio econômico e social. Maria Helena Correia dos Prazeres, nativa com 67 anos de idade conta que seu pai adoeceu após ter perdido o roçado. As mulheres não podiam mais pegar frutas no “mato” e a maioria delas foi cuidar de barracas (vendiam comida e bebida) na beira da praia, aproveitando o aumento no fluxo de freqüentadores e os homens foram vender sua mão-de-obra no centro da cidade ou na construção civil. Vale salientar que a maioria dessas pessoas só tinha concluído os primeiros anos de escola.

Lois Garda conclui o Capítulo 3 de sua tese dizendo que é muito difícil precisar com base nos dados colhidos, o que realmente aconteceu durante os longos anos de disputa, mas que não podemos ignorar a violência dessa expropriação ou das mudanças socioeconômicas que ela desencadeou.

Assim a Vila de Ponta Negra passou de reduto agrícola à periferia urbana e atualmente enfrenta graves problemas econômicos e sociais, além do preconceito social visível nas páginas dos jornais da cidade, que ignora os mais de 300 anos de histórias e tradições do núcleo que povoou um dos bairros mais importantes para a atividade turística em Natal-RN.

Continua....

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☼ UMA BREVE HISTÓRIA DA VILA

Você conhece a história de Ponta Negra?

Por ser moradores, sabíamos uns pedaços de história escutadas na escola e outras ouvidas por alguns moradores. Depois de três meses respirando a vida do bairro e escutando as várias vozes que nele vivem pudemos fazer um apanhado de informações interessantíssimas.

E como conhecimento nunca é demais e também não ocupa espaço, decidimos compartilhar essa rica história baseada nas memórias dos nativos e moradores que tanto amam esse bairro.

Uma das primeiras referências históricas a Ponta Negra é a descrição do desembarque, em 8 de dezembro de 1633, de tropas holandesas. Alguns registros de 1877 falam de uma casa de oração no povoado e de uma escola católica pública exclusiva para meninos. O primeiro nome da localidade foi Cabo de São Roque, depois passou a se chamar Ponta Preta, isso graças à quantidade de pedras pretas vistas de cima da estrada mas depois, Ponta Negra caiu no gosto popular. 

Os registros escritos sobre a história de Ponta Negra são escassos e, para fazer escrever esse capítulo, tomamos como ponto de partida os anos 1940, pois o texto que utilizamos como referencial histórico para analisar a comunidade, retoma seu cotidiano e seus laços familiares a partir dessa década. O texto em questão é: A Família e Mudança Social, tese de Mestrado da antropóloga norte-americana Martin Lois Garda, defendida em 1983, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

O Início

Bem antes de ser ponto turístico da Cidade do Sol, Ponta Negra era um povoado de agricultores e pescadores, vivendo independente do centro da cidade e cercado de dunas cobertas pela vegetação nativa de tabuleiro costeiro e um extenso mar azul de águas mornas e calmas. Um verdadeiro paraíso!

A população era praticamente auto-suficiente no que diz respeito à alimentação, pois tudo era produzido dentro do território da comunidade. As tarefas diárias (o trabalho) eram assim divididas: os homens praticavam a pesca artesanal, a agricultura de subsistência plantando milho, feijão, mandioca entre outros e produziam carvão. As mulheres produziam renda de bilro e colhiam frutas da estação no Tabuleiro Costeiro para vender no centro da cidade e também cuidavam dos afazeres domésticos e dos filhos. Três casas de farinha concentravam a produção, reunindo famílias em cantigas, danças e cooperativismo.

O desenvolvimento urbano desse povoado teve início na década de 1940, mas sua primeira grande transformação social e econômica aconteceu após quase 20 anos de disputa pelas terras agricultáveis entre os nativos e Fernando Pedroza - corretor imobiliário com grande influência política no Estado e cuja família já criava algumas cabeças de gado nas terras de Ponta Negra.

Para que possamos compreender o porquê dessa disputa é necessário abrir um parêntese e contextualizar um período histórico da cidade do Natal que teve relação direta com essa luta.

Aguarde o próximo post...

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☼ PONTA NEGRA: A VILA COMO ELA É

A história e o universo sociocultural da Vila de Ponta Negra serão mostrados para todo o Brasil no radiocumentário “Vozes da Vila”.

Dona Helena é uma das rendeiras da comunidade.

O Brasil vai conhecer a Vila de Ponta Negra. A Vila como ela é, mostrada pela própria comunidade. O radiodocumentário “Vozes da Vila”, único projeto do Rio Grande do Norte selecionado no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos - Prêmio Roquete-Pinto, desvenda, em doze episódios, o universo sociocultural do lugar e resgata os pormenores de sua história, desde quando a comunidade era isolada de Natal e auto-suficiente até os dias de hoje.

Em fase de finalização, com previsão de ser concluído até o final de outubro e enviado à Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub) para veiculação em suas rádios associadas provavelmente ainda neste ano, o documentário é um retrato, ou melhor, um registro sonoro fiel da Vila.

O jornalista Yuno Silva e as estudantes de Radialismo da UFRN Joanisa Prates e Ana Ferreira estão à frente da equipe que trabalha no documentário. Eles entrevistaram mais de 50 moradores da Vila de Ponta Negra. Gente como dona Guiomar, de 90 anos, uma das primeiras professoras da comunidade, e Gilberto, pescador de 51 anos que todos lá conhecem como “Seu Boneca”.

Dona Guiomar, uma das primeiras professoras da Vila, ao lado do neto Michel

Além da pesca e educação, o documentário fala, entre outros assuntos, de gastronomia, religião, lendas, festejos, turismo, urbanismo, meio ambiente e, claro, de cultura popular, tema ao qual são dedicados dois episódios, o que se justifica pelo fato de a Vila de Ponta Negra ser um celeiro de cultura e tradições, representadas por grupos de danças tradicionais, pelo trabalho manual (renda de bilro, principalmente) e pesca artesanal.

Mas todas essas tradições, segundo os artistas populares, rendeiras e pescadores, estão ameaçadas. “Seu Boneca” deu um depoimento dizendo que daqui a 15 anos a pescaria na Vila vai se acabar. O pescador fala que as gerações mais novas não se interessam pela pesca. O mesmo ocorre com a renda e com as danças.

“Atualmente, Ponta Negra concentra os principais investimentos imobiliários e turísticos de Natal e, dentro desse contexto, a cultura e a essência da Vila estão caindo no esquecimento dos natalense e dos próprios moradores do bairro. A maioria dos turistas não entra em contato com esse rico manancial de tradições, manifestações da cultura popular e atividades artesanais, e as novas gerações estão perdendo o interesse em perpetuar essas tradições devido à constante desvalorização de sua identidade cultural”, diz Yuno Silva.

De acordo com os relatos, a Vila de Ponta Negra era um conglomerado agrícola e familiar isolado de Natal e auto-suficiente até o início da década de 60, quando o governo vigente se apossou das terras e destruiu as plantações. A Vila assistiu de camarote sua primeira grande transformação com a mudança no meio de subsistência.

Equipe do radiodocumentário entrevista Antônio Leal, antigo morador da Vila

“Existem relatos atestando que moradores chegaram a adoecer, e mesmo a morrer, pelo desgosto de ver sua terra ameaçada e destruída”, diz Yuno, que identificou nas entrevistas feitas para o radiocumentário um povo cheio de nostalgia e preocupado com os tempos de hoje, em que a Vila, desassistida pelo poder público, sucumbe aos poucos à violência associada ao consumo e venda de crack - problema contra o qual os movimentos sociais vêm lutando sozinhos.

Seleção e veiculação

O projeto “Vozes da Vila” foi inscrito pela Universitária FM/Funpec no I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos - Prêmio Roquette-Pinto. Realizado pela Arpub (Associação das Rádios Públicas do Brasil), com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, o Prêmio selecionou 40 propostas de todo o Brasil, sendo 13 radiodocumentários, dez radiodramaturgias, dez programas infanto-juvenis e sete programas do gênero radioarte. Do Rio Grande do Norte, o “Vozes da Vila” foi o único contemplado. Os 12 episódios do radiodocumentário potiguar, de 30 minutos cada, serão veiculados para todo o Brasil por meio das rádios associadas à Arpub.

EPISÓDIOS

Era uma voz na Vila... – introdução e apresentação, histórico, dados e estatísticas, contextualização e atualidades;

Homens ao mar – pescadores, surfistas, início da relação comunidade x mar, atividade comercial e fatos históricos;

Sabores da Vila – os quitutes que resistiram ao tempo, os primórdios da comunidade em torno das casas de farinha, especialidades culinárias, o contexto atual com a altíssima gastronomia mundial;

Cultura popular (parte 1) – origem, presente e futuro das manifestações culturais, a resistência dos grupos e a nova geração;

Cultura Popular (parte 2) – detalhes sobre cada um dos grupos: Bambelô, Congos de Calçola, Boi de Reis, Coco de Roda, Pastoril e Lapinha;

Lendas e histórias – o lobisomem, as lendas da comunidade contadas pelos mestres da cultura popular, histórias de pescador e personagens da Vila;

Arquitetura e meio ambiente – o potencial turístico, a beleza natural exuberante, a especulação imobiliária, degradação ambiental, poluição do mar, falta de saneamento, crescimento urbano desordenado e abismo social;

Artes da Vila – as rendeiras, atividades artísticas e culturais desenvolvidas no bairro: circo, teatro, dança, música, ponto de cultura, cineclube;

Vila de todos os credos – a hospedagem do Papa João Paulo II, igrejas católicas, evangélicas, terreiros de candomblé, centros espíritas e reuniões budistas;

Turismo e paisagem natural – a ocupação irregular do solo, a verticalização radical do bairro, os zoneamentos de áreas de interesses específicos, a complexidade urbana, a falta de espaços públicos de lazer e o ecossistema social;

Movimentos sociais – projetos de amparo social, presença de instituições públicas e/ou privadas no bairro, atuação de ONGs, movimentos populares, voluntários, necessidades, novas iniciativas e projetos de segurança pública;

Educação – televisão pública na praça, fofoca comunitária, as primeiras escolas, os primeiros professores, o Patronato (internato católico), interação da Vila com Natal antes das construções de estradas.

FICHA TÉCNICA

Direção, pesquisa e produção - Joanisa Prates
Pesquisa roteiro e produção - Ana Ferreira e Yuno Silva
Trilha sonora - Carlos Zens
Locução - Rodrigo Bico
Cordelista/poeta - Emmanoel Iohanan
Editor de áudio/sonoplastia - Eduardo Pandolphi
Técnico captação de áudio/sonoplastia - Rafael Telles

* Fonte: Nominuto.com - 17/out/2010, por Itaércio Porpino
Fotos: Yuno Silva e Joanisa Prates 

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☼ AS VOZES EM PROJEÇÃO NACIONAL

Os 300 anos de cores e sons da Vila de Ponta Negra poderão ser ouvidos em radiodocumentário. O projeto Vozes da Vila está em fase de edição e montagem. Ainda em outubro será enviado à Associação das Rádios Públicas do Brasil (Arpub) para distribuição nacional entre rádios associadas. Em Natal poderá ser escutado nas rádios Universitária e Senado. 

O projeto foi aprovado no edital Prêmio Roquette-Pinto, da Arpub - com patrocínio da Petrobras e do Ministério da Cultura, que selecionou 40 projetos de todo o Brasil, destes, apenas 13 são radiodocumentários. E o único projeto potiguar aprovado foi o radiodocumentário Vozes da Vila, roteirizado por Yuno Silva e Ana Ferreira e dirigido e produzido por Joanisa Prates.

Serão seis horas de programa, divididos em 12 episódios de 30 minutos cada. Funcionará como uma espécie de registro sonoro e histórico de tudo o que a Vila de Ponta Negra tem para contar: as rendeiras de bilro, a luta pela terra, a invasão militar, os grupos de cultura popular, movimentos sociais, turismo, educação, sabores da vila, surf e pescadores, religião, festejos, lendas e histórias de Lobisomem.

"Antes de ser internacionalmente conhecida como principal cartão postal da cidade; antes de ser vista como destino turístico e/ou reduto boêmio; e bem antes de ir parar nas páginas policiais, a Vila de Ponta Negra já era um grande celeiro de Cultura e tradições que resiste ao tempo, a tudo e a todos. O bairro é guardião de uma história com mais de 300 anos, ainda pouco conhecida pelos natalenses", comenta o roteirista do projeto, Yuno Silva. 

Joanisa Prates destacou a experiência dos três envolvidos com o rádio. "Mas produzir um rádiodocumentário foi um desafio pra nós. Estamos cordelizando o roteiro para poetizar os relatos". Joanisa acredita na veiculação do projeto nas rádios locais até o fim do ano. O I Concurso de Fomento à Produção de Programas Radiofônicos / Prêmio Roquette-Pinto priorizou temas que valorizam a Cultura brasileira.

por Sérgio Vilar | Foto: Yuno Silva

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